Insônia

Boa parte da população mundial se queixa de problemas e dificuldades ao dormir. Levantamentos epidemiológicos de mais de uma década atrás mostram que há uma prevalência de insônia em cerca de 10% da  população geral do mundo [1]. No entanto, este percentual varia de local para local, sendo que em alguns estudos, este percentual chegou a 40%.

Há alguns anos, pesquisadores vinculados à Associação Brasileira do Sono afirmaram em uma notícia de grande repercussão que cerca de 73 milhões de brasileiros sofrem com a insônia diariamente.

Mas afinal, o que é a insônia?

Geralmente, todas as pessoas têm alguma definição preconcebida, as quais estão relacionadas com problemas de dormir. O que não está errado!

De acordo com Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (ICDS [2]), insônia é definida como dificuldade em iniciar ou manter o sono, ou  mesmo  a  percepção  de  um  sono  não-reparador,  combinada  com  consequências  adversas  durante  o  dia,  como  fadiga  excessiva,  queda  de desempenho ou mudança de humor. Como resultado, é comum o relato de maior fadiga e sonolência, que pode estar associado a outros sintomas como irritabilidade, ansiedade, falta de atenção e memória.

Existem alguns critérios específicos para o diagnóstico preciso da insônia: 1) dificuldade de adormecer e se manter dormindo, ou uma má qualidade de sono 2) frequência da insônia, na qual está relacionada a quantos dias da semana o indivíduo tem problemas para dormir 3) preocupação com a falta de sono, e em como ela poderá afetar o desempenho de sua rotina diária 4) a rotina de sono afeta diretamente o funcionamento social e ocupacional do indivíduo.

Desta forma, para uma identificação criteriosa da insônia, sempre é necessário a busca de um profissional de saúde capaz de avaliar o seu problema.

De forma adicional ao diagnóstico, existem diversos fatores que causam a insônia, que estão relacionados a tipologias diferentes de insônia, as quais apresentam diferente gravidade e prevalência na população.

De acordo com a Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (ICDS [2]), as insônias podem ser classificadas de forma geral em dois grandes grupos: agudo e crônico. No entanto, além desta divisão inicial, é possível diferenciar ainda mais as causas e consequências de forma a gerar diversos grupos distintos – os quais abordaremos a seguir.

  • Insônia de adaptação: também conhecida como insônia aguda ou insônia de curto prazo. Geralmente é causado por estresse mental e tende a durar apenas alguns dias ou semanas.  Estudos epidemiológicos indicam que a prevalência desta categoria de insônia em adultos provavelmente está na faixa de 15-20%. Este problema pode ocorrer em qualquer idade. A insônia de adaptação é mais comum em mulheres do que homens, bem como em adultos mais velhos do que adultos mais jovens e crianças
  • Insônia comportamental da infância: ocorre quando uma criança associa o adormecimento a uma ação (ser abraçada), a algum objeto (mamadeira) ou local de dormir (cama dos pais), de forma a ser incapaz de adormecer se separados dessa associação. Cerca de 10-30% das crianças são afetadas por esta condição de insônia.
  • Insônia idiopática: uma insônia que começa na infância e dura toda a vida, não pode ser explicada por outras causas. As informações sugerem que esta condição está presente em aproximadamente 0,7% dos adolescentes e 1,0% dos adultos muito jovens.
  • Higiene do sono inadequada: esta forma de insônia é causada por maus hábitos de sono que o mantém acordado ou trazem desordem em seu horário de sono. Estudos relatam que esta condição está presente em cerca de 1 a 2% dos adolescentes e jovens adultos.
  • Insônia devido à droga ou substância, condição médica ou transtorno mental: os sintomas de insônia geralmente resultam de uma dessas causas. A insônia é associada mais frequentemente com um transtorno psiquiátrico, como depressão, do que com qualquer outra condição médica. Pesquisas sugerem que cerca de 3% da população tem sintomas de insônia causados por uma condição médica ou psiquiátrica. Entre adolescentes e adultos jovens, a prevalência desta forma de insônia é ligeiramente mais baixa. 2% da população em geral é afetada por esse tipo de insônia. Aproximadamente 3,5% de todos os pacientes de centros do sono são afetados por essa condição.
  • Insônia paradoxal: uma queixa de insônia severa ocorre mesmo que não haja evidência objetiva de um distúrbio do sono avaliado em clínicas especializadas. A prevalência na população em geral não é conhecida. Entre as populações clínicas, esta condição é normalmente encontrada em menos de 5% dos pacientes com insônia. Acredita-se que seja mais comum em jovens e adultos de meia-idade.
  • Insônia psicofisiológica: uma queixa de insônia ocorre com uma quantidade excessiva de ansiedade e preocupação em relação ao sono e insônia. Esta condição é encontrada em 1-2% da população geral e 12-15% de todos os pacientes atendidos em centros de sono. É mais frequente nas mulheres do que nos homens. Raramente ocorre em crianças, mas é mais comum em adolescentes e em todos os grupos de idade adulta.

Para a identificação de cada categoria de insônia é utilizado um protocolo de análise específico. Em um artigo realizado por pesquisadores da Associação Americana de Medicina do Sono (AASM) [3], foi realizado um levantamento da categorização de cada uma das tipologias de insônia e descrito quais critérios são utilizados para identificar a insônia e em qual espectro o paciente está inserido.

Em um artigo recente, os autores propuseram uma atualização nos critérios de identificação da insônia. Os aspectos que devem ser observados são:

  • Queixa principal: o indivíduo reclamar da falta de sono
  • Rotina do ritmo sono/vigília: identificar o padrão diário dos horários de dormir e acordar, bem como a identificação de latência na hora de dormir e cochilos diurnos.
  • Rotina na hora de dormir: ambientes sem poluição sonora/luminosa não serem as causas dos problemas de sono
  • Comportamento noturno: incidência de outros problemas como ronco e movimentação noturna podem ser a causa ou um diagnóstico complementar do problema.
  • Disfunção diurna: diminuição na qualidade de vida, problemas de memória, cansaço e oscilações de humor estão diretamente associados à insônia.
  • Histórico Médico: diversas comorbidades podem contribuir para problemas de insônia, tais como problemas pulmonares, cardíacos, diabetes, etc.
  • Medicamentos: o uso de medicamentos afetam diretamente o sono. O uso de medicamentos psiquiátricos, bem como alguns remédios para doenças crônicas pulmonares e cardíacas podem afetar a sua rotina de sono.
  • Histórico social: o horário do trabalho e as tarefas diárias também afetam o sono. Viagens transmeridionais, trabalho noturno, bem como o consumo de nicotina, café e álcool podem afetar diretamente no agravamento dos problemas de insônia.

Um aspecto que precisa ser mantido em mente é que muitas pessoas dormem pouco, e não têm consequências negativas para as suas tarefas, nem para sua qualidade de vida. No entanto, ficam preocupadas por estarem dormindo tão pouco por noite. Caso você seja uma delas, não se preocupe, pode ser que você seja apenas um pequeno dormidor! Uma parcela da população não precisa dormir muitas horas por noite para ter um sono completamente restaurador!

Além das informações que propiciam um diagnóstico de insônia, existem ferramentas que são utilizadas de forma a complementar, ou até mesmo identificar os problemas de sono mais objetivamente. O uso de diários de sono – que consiste em uma documentação da rotina diária dos horários de dormir e acordar dos indivíduos – é algo muito comum neste tipo de análise.

Em uma investigação mais robusta, é possível realizar um acompanhamento através de actímetros, com os quais é possível avaliar com maior precisão os horários de dormir e acordar por um longo período de tempo com o indivíduo em sua rotina usual, bem como a latência do sono e os episódios de movimentação e despertares noturnos. Caso seja necessário, ainda é possível realizar uma polissonografia, exame ainda mais específico em ambiente laboratorial. Estes métodos de análises já foram abordados anteriormente em outros textos.

Para o tratamento da insônia, o melhor tratamento será aquele recomendado por um  profissional de saúde, de preferência um médico do sono. De uma forma geral, é possível separar basicamente o tratamento em dois grandes grupos: o tratamento através de fármacos e a terapia comportamental cognitiva para a insônia. Muitas vezes as abordagens são realizadas em conjunto, de forma em que uma apoia a outra.  Vale lembrar que os tratamentos para insônia são algo sério que devem ser seguidos rigorosamente enquanto for necessário.

Desta forma, é possível notar que a insônia é um transtorno muito comum que gera consequências negativas para as pessoas, afetando diretamente a qualidade de vida e o desempenho diário das tarefas. É necessário, assim, manter hábitos de vida saudáveis, e manter um ambiente escuro e tranquilo, para facilitar um sono de maior qualidade!

[1] Ohayon MM, Reynolds CF. Epidemiological and clinical relevance of insomnia diagnosis algorithms according to the DSM-IV and the International Classification of Sleep Disorders (ICSD). Sleep Med 2009;10:952-60

[3] Edinger, J.D., Bonnet, M.H., Bootzin, R.R., Doghramji, K., Dorsey, C.M., Espie, C.A., Jamieson, A.O., Mccall, W.V., Morin, C.M., Stepanski, E.J., 2004. Derivation of Research Diagnostic Criteria for Insomnia: Report of an American Academy of Sleep Medicine Work Group. Sleep 27, 1567–1596.. doi:10.1093/sleep/27.8.1567

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